"Nem se quer a noção de voluntário é tão clara como parece. Na sua Ética a Nicómaco, Aristóteles imagina o caso de um capitão de navio que deve levar um determinado carregamento de um porto para outro. No meio da travecia levanta-se uma grande tempestade.
O capitão chega á conclusão que não pode salvar o barco e a vida dos seus tripulantes se não lançar a carga pela borda para equilibrar a embarcação. De modo que a lança à água. Pois bem, atirou-a porque quiz? Evidentemente que sim, porque teria podido não se livrar dela e arriscar-se a morrer. Mas é claro que o que ele queria mesmo era levar a carga ao seu destino final. De outro modo teria ficado em casa sem zarpar. Sendo assim, atirou-a fora querendo... Mas sem querer.
Não podemos dizer que a deitou fora involuntariamente, mas também não se pode dizer que deitá-la fora fosse a sua vontade. Às vezes poderíamos dizer que agimos voluntariamente... Contra a nossa vontade."
SAVATER, Fernando: As Perguntas da Vida,
Publicações D.Quixote
No caso de um capitão de navio em "Ética a Nicómaco" de Aristóteles, este mostra-nos o comportamento do capitão perante a tempestade que se levantou, sendo que este teve de optar entre não lançar o carregamento ao mar e arriscar-se a morrer bem como como os seus tripulantes entre lançar e assim salvaguardar as suas vidas.
O capitão, diante de tal situação, lançou a carga ao mar ressalvando assim a vida de todos os tripulantes a bordo do navio, apesar de essa não ser a sua vontade inicial (ter de lançar o carregamento à água), pois o seu objectivo era levar esse ao outro porto que estava destinado inicialmente. Mas devido à situação que se sucedeu, o capitão teve de agir lançando o carregamento ao mar, ou seja, o seu comportamento é um agir e não fazer. O termo "fazer" tem um sentido mais amplo do que o "agir", pois aplica-se tanto aos animais irracionais, como aos animais racionais, ou seja, a nós seres humanos, e o termo "agir" apenas se aplica aos seres racionais. O "fazer" implica apenas executarmos um determinado efeito num objecto, sem que para isso tenhamos de estar conscientes, de ter intenção ou possibilidade de escolha, por exemplo: os movimentos que fazemos quando estamos a dormir, não os fazemos intencionalmente; outro exemplo: as formigas ao fazerem os seus formigueiros, também não estão conscientes do que estão a fazer, apenas o fazem instintivamente. Enquanto que o "agir" designa apenas algumas das nossas actividades, aquelas que são conscientes, intencionais e voluntárias, tendo de ser previamente deliberadas, para que se possam tomar decisões com o fim de executarmos o que projectámos através do que foi dito anteriormente.
Como tal, o comportamento do capitão é um "agir", pois este segue a rede conceptual da acção, ou seja, existe um agente que é o capitão, sendo este responsável pela acção e pelas consequências positivas ou negativas; existe uma causa que é a tempestade, bem como uma intenção que é salvaguardar as vidas dos tripulantes, ou seja, o que pretende atingir ao realizar essa acção. Segue-se então a deliberação, em que o tripulante concebe várias hipóteses, deliberando sobre cada uma delas, analisando os prós e os contras, essas hipóteses são: ou o capitão lança ao mar o carregamento e assim salva as vidas das pessoas que estão no navio, ou então não lança ao mar a carga e arrisca-se a morrer juntamente com os seus companheiros de bordo.
Com base nos motivos que o capitão tem e após a deliberação do mais acertado a ser feito, escolhe uma das opções que tem e opta por lançar o carregamento ao mar tomando, por isso, uma decisão, que é o momento em que se opta por um dos cursos possíveis da acção. Após a decisão o capitão executa o que já previamente concebeu e deliberou, pondo em prática a sua decisão lançando o carregamento ao mar com o fim de equilibrar o barco para que hajam mais possibilidades dos tripulantes ficarem a salvo.
Para finalizar, apesar da vontade do capitão ser a de transportar o carregamento de um porto para o outro, este teve de abdicar dessa devido aos acontecimentos que se sucederam, ou seja, ao ocorrer uma tempestade, o capitão teve de agir de modo a que conseguisse salvar a vida dos tripulantes sendo, por isso, necessário optar pelo que seria o mais acertado a fazer, que era abdicar da sua vontade inicial, para assim poder executar a intenção que devido à tempestade foi a de salvaguardar a vida das pessoas a bordo do navio.
Com isto, podemos dizer que a acção do capitão foi um acto voluntário, pois este teve intenção de lançar o carregamento ao mar, mesmo não sendo essa a sua vontade inicial. Sendo-me assim possível reformular a última frase do texto com base no que aqui já foi dito: "Às vezes poderíamos dizer que agimos voluntariamente... contra a nossa vontade" inicial.
by: Andrei@'
in: Filosofia